quinta-feira, 24 de março de 2011

Tomara

Você vive tão bem só, e eu não quero estragar seu coração. É tão lindo te ver assim, esse sorriso energético, esse brilho afiado no olhar. Você acorda e vai à academia, cozinha a sua comida. Pesquisa na internet máscaras caseiras. Sai cantarolando pela casa com uma camiseta que cabe dez de você e uma máscara de aveia e mel na cara. Você liga seu pc e liga a cam, você quer que seus amigos te vejam assim, eles riem e você também. Meus Deus quanta alegria, será que já conheceu a dor de um amor? Eu acho que não. Queria te conquistar, mas isso no final vai estragar seu coração, vai apagar esse sorriso jovial. É melhor que fique assim. Que paz, que conforto você passa. Você se queixa que eu fumo demais, que gasto demais. Diz que é melhor juntar e viajar, eu concordo. Mas, as viagens nunca dão certo, e eu estouro meu dinheiro e ainda te peço emprestado. As tardes com você são simplesmente maravilhosas, revitalizantes. Assistimos filmes, você pousa a sua cabeça em meu colo e pede pra que eu fique mexendo em seu cabelo, você diz que isso te faz dormir. Você faz isso de uma forma tão espontânea, e eu não me sinto desconfortável.

Você se diz estar sempre apaixonada por alguém, e no outro dia esquece. Que paixão que nada! Tomara menina, que só brinque de se apaixonar. Tomara que ninguém tão cedo, nem mais tarde, venha a partir seu coração.

Leila Oliveira

quarta-feira, 16 de março de 2011

Desejo

Que eu não perca a minha sensibilidade, a esperança, a crença no amor e a solidariedade. Que eu tenha mais paciência com as pessoas, que eu as tente compreender, a ouvi-las e que saiba perdoar.
Que uma bela canção, uma poesia, um filme, um sorriso de uma criança e a graça dos animais me arranquem um sorriso ou uma lágrima.
Quando eu cair, que me reste ao menos um pouco de força para me levantar e continuar. Por mais que eu seja enganada, quero continuar acreditando nas pessoas. Que eu não me torne um ser frio, insensível, amargo, desconfiado e desinteressado pela vida.
Que o meu bom humor esteja sempre comigo, por mais que eu pareça, às vezes, uma "abestalhada". Quero ser uma velhinha bem animada.
Enxergar a grande importância das pequeninas coisas. Sentir a brisa no rosto, ouvir o sopro do vento, sentir o cheiro da chuva, admirar as estrelas, o sol, a lua nova, crescente, minguante ou cheia... O contato dos pés com o chão.
Que as lembranças das brincadeiras da minha infância, tão feliz, não fujam da minha memória, as quero sempre vivas.

Que eu não esqueça do rosto dos que já foram. Que eu não esqueça daquele beijo, daqueles olhos, daquele abraço, do bairro onde morei, daquela viagem, daquela festa maravilhosa, do dia que te conheci, do primeiro porre, da minha primeira vez, da minha primeira menstruação, do meu primeiro beijo, do meu primeiro amor, do tempo de colégio e... que eu não esqueça de mim.
É só o que eu desejo.

Leila Oliveira

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Dança dos corpos


Quando nossos olhos se encontram, se fixam brilhantes e falantes. Nossos olhos se fecham, e nossas bocas se procuram fervorosas e sedentas. Minhas mãos vão percorrendo o seu corpo como se dançassem uma eterna valsa, explorando cada pedaço do seu corpo. De repente somos tomados por uma onda de sensações, imersos no prazer perdemos a razão. Nos mordemos, nos lambemos, nos comemos. Nossos poros exalam prazer. Nossos corpos molhados se estremecem, com o coração desgovernado, batendo descompassadamente. Os sussuros já são inevitáveis, ofegantes procuramos ar. Nossos corpos se pressionam suplicando mais e mais contato, e numa fusão se tornam um. Cravamos as unhas, e num grito espocamos de amor.
Depois exaustos, o que se houve é a respiração, o que se ver é a alegria no olhar e o que se sente é uma imensa satisfação. Depois do folêgo estabilizado, novamente fixamos o olhar, nos beijamos, entrelaçamos nossas pernas e adormecemos nús, no chão. No dia seguinte abro meus olhos, com a visão ainda turva, te vejo olhando pra mim sorrindo e dizendo: bom dia, meu amor!

Leila Oliveira

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Quero tanto de volta

Perdi todas as minhas fotos do tempo do colégio. Não sei se deixei no ônibus, no banco, ou pelo centro. Isso me entristece tanto, é como se uma parte de mim fosse com essas fotos, sinto como se a época mais gostosa da minha vida tivesse escorrido por aí e eu não vi. Ai meu Deus, o rosto de Rosana, de Jó, Virgínia, Iuri, Noélia, Denilsson... e se eu esquecer? Só encontrava eles naquelas fotografias, não sei por onde andam, nem lembro em que momento da vida nos perdemos. E aquela farda esverdeada com detalhes branco? Perdi o meu passaporte que me remetia pra aquela época, perdi. Eu deveria ter escaneado, deveria! Meu cabelo estava tão engraçado, longo, porém engraçado. Meus dentes desalinhados e salientes rasgando em sorrisos de uma alegria qualquer. Se eu soubesse que perderia, teria passado mais tempo olhando para elas da última vez. Que bobagem, que besteira, que drama! Afinal, são só fotografias. Sim, são fotografias... mas eram muito importantes pra mim. Aaaah, a que eu estava no ônibus... MERDA, mil vezes MERDA! Meio adolescente, mas é que eu voltei por um instante para aquela época. Nem posso mais imprimir as fotos, só a lamentação. Só vou lembrar de quando, num momento qualquer do dia, eu abria minha caixa, pairava meu olhar sobre aquelas fotos, que por um desleixo ou outro estavam se deteriorando e viajava. Queria tanto elas de volta!

Leila Oliveira

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Com fé, só.

Te recebo. Te recebo de coração e alma despedaçadas, não minto, mas a fé ainda está aqui, a fé no novo, no outro, em você. Te recebo com essas flores que me foge o nome. Te recebo em minha casa desarrumada, te recebo com felicidade sem medidas. Se quiser entrar, entre. Se quiser ficar, fique. Se quiser ir, vá. Te recebo sem grades, sem cercas e sem presas. Te recebo com um beijo, com um abraço, com um afago. Assim é que eu te recebo, com café, com ternura, pura ou com mistura, com ou sem açúcar. Te recebo com defeitos, com palavras, com silêncio, te recebo aqui bem perto, te recebo aí de longe. Sem nome, com história, vida torta, mas com fé. Te recebo no tanto que nos cabe, te recebo em passos largos apressados, com música, com poesia, com piada, te recebo com um filme, aquele que você gosta. Te recebo com um vinho, com um olhar, te recebo na minha cama, Te recebo com as coisas antigas, te recebo com as coisas loucas, cegueira, amante surda.

Quando recebi, reparei o desfazer do teu sorriso, e vi algo de alegre nele. Vi que trazia em seu olhar lindamente triste, sonhos e um punhado de fé. Por isso, somente por isso, eu recebo. Só não te recebo sem FÉ.


Leila Oliveira

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Meio

Meio

Sou meio de cada coisa, de cada lugar, de cada pessoa. Sou meio meu pai, minha mãe, sou meio você. Sou meio Bahia, meio Sergipe.


Sou meio homem, meio mulher. Meio triste e alegre, meio verdade, meio mentira. Meio de ninguém, meio de um, meio de duas. Meio choro, meio riso.


Mas às vezes sou mais de um meio que um meio só. Sou mais noite que dia, mais chuva que sol, sou mais eu que você. Mais vinho que cerveja, mais você do que eu.



Mais sal que açúcar, mais feira que shopping, mais mar que cachoeira, mais dançar do que cantar. Sou mais amigos que amores, mais partida que chegada, mais rua do que casa.



Não dá pra ficar só no meio, nem no mais de que um meio, fico também no menos do meio. Caranguejos, Pedrinhas, cajús, cabruncos, oxentes, Itabuna, Rio, Maringá... um taco de mim em cada canto está. Aqui, ali e acolá.

Leila Oliveira











sábado, 9 de outubro de 2010

Lembra?

Lembra, amor? Quando a gente amanheceu nas escadas da catedral, tomando pedra noventa e fumando pacaia? Você ouvindo metal, e eu suportando aquele som irritante só pra te agradar, mas eu achava lindo a sua empolgação tocando guitarra invisível. Lembra, amor? Você precisa lembrar... tente lembrar.
Lembra, amor? O quanto me surpreendeu o tamanho daquele cravo, e eu fiquei louca para espreme-lo, você se recusava a deixar. Corremos a casa toda, eu querendo a todo custo eliminar o cravo, lembra? Ah, aquilo tirou a minha paz... mas no final você deixou, mesmo sabendo que ia doer, só pra não me contrariar. Sua testa ficou horrível com aquele calombo!
Lembra, amor? Quando procuramos algo pra comer? Estávamos quebrados(sempre quebrados) e só tinha um miojo? A divisão do miojo foi muito divertida, eu queria que a maior parte fosse pra você, você queria que fosse pra mim, passamos horas discutindo, e o miojo acabou esfriando e ninguém comeu.
Lembra, amor? Fazíamos amor a qualquer hora, se brincar, em qualquer lugar. Uma, duas, três... muitas loucuras. Quando você me olhava daquele jeito, como se seus olhos fossem me comer, eu arrancava a sua roupa e saía de mim.
Agora, saímos com nossas carteiras de cigarro, cada um com a sua, tomamos bons vinhos, vodcas, cervejas, frequentamos bons lugares. Você já não ouve metal com tanta frequência, ou quase nunca. Sempre concordamos com as mesmas coisas. Não precisamos decidir quem fica com a maior parte do miojo. Fazer amor sempre à noite, não em qualquer lugar, e duas ou três vezes na semana. Sim, tudo se tornou muito chato e monótono. Eu e você.
Você me propôs uma coisa e eu topei. Para relembrar o tempo em que estávamos no ápice da nossa felicidade, compramos um pacote de pacaia, uma garrafa de água ardente pedra noventa e fomos para as escadas da catedral. Sentamos. A escada estava pintada. Muita coisa mudou, assim como nós. Abrimos a garrafa, acendemos a pacaia, eu reclamei, você reclamou... a cachaça e aquele fumo estavam intragáveis, e nos perguntamos como conseguimos, um dia, beber aquilo. Eu reclamei do frio, você do silêncio. Não nos restou outra opção a não ser ir pra casa. Viemos em silêncio durante todo o caminho até em casa, nostalgicos, cada um com seus pensamentos. Já na porta de casa, você, rasgando o silêncio, se virou para mim e disse que aquele tempo não volta mais, que foi único e nunca se repetirá, de nada adiantaria sentar naquelas escadas esperando aquilo voltar. Não volta. O nosso tempo ficou lá atrás.
Ah, amor... lembra?
Leila Oliveira