terça-feira, 7 de agosto de 2012

Compensa


Não vire a mesa. Quanto menos falar, menos saberão sobre você. Falar demais é como ficar nú diante de alguém, se preserve. Respire fundo e continue. A verdade que sabe leve com você, saber da verdade já te coloca no lucro. Não grite, não ironize. Silencie. Deixe o ar com o cheiro inquietante da dúvida. Agradeça pelo esclarecimento mentalmente, no máximo dê um sorriso e continue andando. O silêncio pra quem sabe usar na hora certa é coisa muito chique, e é pra poucos. Engolir o grito na véspera da boca é difícil, mas acredite, é compensador. 

Leila Oliveira

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Panorama



A minha cama às vezes é palco, outrora picadeiro e tem dias que vira poleiro. É carnaval e culto. É bossa, é dance, é samba. Entre garotas de Ipanema, tuntz tuntz e Zecas vou indo. Entre cabelos, penas e confetes eu vou dormindo. E há dias que a minha cama é apenas uma cama.

Leila Oliveira

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Passante


Ali surgiu um vagabundo jogado no mundo. Era mais zé ninguém do que ninguém. Por muitos tratado com desdém, mas das mulheres ele ouvia: me espera lá, que hoje tem. Querido dos cachorros e dos velhos da praça. Batia os quatro cantos da pequena cidade, perambulava cantarolando. De dormida misteriosa e despertada duvidosa, não entregava seu coração e nem mostrava sua direção. Caminhando torto, sempre de lado. Cabelo arrumado e cangote perfumado, cantava viúvas e mocinhas, cantava música e falava poesia. Não tinha trabalho, nem horário. Pouco aprendeu com o professor Raimundo, o que ele sabia aprendeu com o mundo. Aprendeu a degustar cachaça e a enrolar fumo, aprendeu a rolar dado e a escorregar baralho. Malandro e enrolado, quase sempre ganhava. Falava bonito, metido a conquistador e atrevido. Mal não passava. Conseguia beber onde devia e comia sempre o que gostava e nada gastava. Menina-moça-curada, aparece grávida. Quem foi que comeu? Viúvas, mal casadas, moças inocentes e rapazes. Nos cantos dos becos, no mato ou na estrada. Certa noite ele sumiu, dizem até que virou passarinho. A cidade ficou mais triste, a noite ficou saudosa e as moças lamentavam a sua falta. Era apenas um passante.

Leila Oliveira

domingo, 1 de julho de 2012


Pé lá, pé cá


É uma meia verdade, uma expectativa inteira e o risco do nada que vem. Mas a gente tenta, a gente aposta e a gente corre. Corre o risco, corre a mão, corre a boca, corre do querer e corre pra abraçar. Morrendo de sede e bebendo água em conta gotas. Se descabela e tem cautela.  A gente esconde, a gente mostra. Mostra o corpo, esconde a alma. Esconde a intenção de um coração. A gente levanta risos e voos, arriscamos passos largos e apertados. Vai e volta, fica ou vai embora. A gente espera. Espera que o bom aconteça, espera na porta. A gente só não espera nada. A gente joga, joga tudo pro alto, a gente joga beijo, joga tudo fora ou joga numa gaveta toda aquela vontade (in)contida. A gente se joga. A gente vai. Vai tentando, vai querendo, vai se afastando, vai chegando. Chegando perto pra quem chega de longe. A gente só não espera que nada aconteça. E eu, eu quero que aconteça, meia coisa ou ela toda. Basta apenas que você queira, que me queira e se queira. Vamos querer, meu bem. Vamos arriscar, arriscar e ver se vai dá. Dá bom, dá bem, dá mal. Mas tem que dá. Dá pé, dá fé, dá beijo, dá tu, dá eu, dá nós. Parará, caixinha de fósforo, et cetera. 

Leila Oliveira


sábado, 30 de junho de 2012

Desfolhar

 Assim como a árvore perde suas folhas e é podada pra crescer mais forte e bonita, precisamos deixar que nossas folhas secas caiam pra que nasçam as novas e podar os nossos galhos dos vícios, das vontades vaidosas e de certos apegos para podermos viver bem e melhor. Quando a árvore é podada ela não é nada bela, assim como nós quando cortamos nossos "galhos". Mas, com o tempo a árvore vai ficando folhosa, forte e bela, e com a gente penso que seja a mesma coisa.

Leila Oliveira

terça-feira, 26 de junho de 2012


Das Coisas Rasas 


Entramos numa casa, julgando primeiramente os seus portões e pintura. Se a pintura não agrada, não entramos. E às vezes perdemos o privilégio de conhecer uma casa grande, linda e aconchegante. Bem assim para entrarmos em alguém. Assim como a pintura da casa, julgamos suas roupas(se faz amor de roupas?), e perdemos a oportunidade de ver a beleza e a sinceridade que salta das pupilas, o pulsar de um bom coração, sentir a pele queimar e a descoberta de grandes ideias. A superficialidade é mesmo uma coisa terrível. 


Leila Oliveira

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Andarilho



Ando por estradas sinuosas, com atalhos confusos e retas intermináveis. Onde às vezes me perco e é cansativo andar, mas sempre encontro algo no trajeto que me motiva a tocar a marcha. No caminho, o sol acaricia  a minha cabeça, a chuva me abraça, o vento me toca e o frio faz com que eu me envolva em meus braços pra que eu encontre calor no meu interior. Quando eles acontecem em equilíbrio é maravilhoso, mas quando faz mais sol do que chuva, ou mais frio do que calor, faz penar. Às vezes ando tanto, tanto, tanto... e antes que o desânimo me pegue surgem flores para alegrar os olhos, um rio para matar a sede e molhar meu rosto e se tem sorte pode haver passarinhos cantando para acalmar o coração. Sem  acomodar-me neste rio, sigo caminhando. Subindo ladeiras, chutando pedras, comendo poeira, sentando, resmugando... mas aí aparece uma casinha bonitinha, onde sou convidada a entrar. Tomo café, como um bolo e durmo numa cama bem fofinha. Sou bem recebida, mas é preciso caminhar. Não dá pra ter guarda roupa e cama, nada que se fixe, só uma mochila nas costas, pra que você leve ou deixe alguma coisa, nada de ficar. Dou as mãos ao tempo e ele me leva, e não adianta querer ficar para trás, ele te arrasta. E se você insistir em ficar vai doer, porque o tempo vai te puxar pela orelha e dizer: bora, bora logo! Ele é amigo como o vento, embora não o vejamos ele nos toca, assim como o vento molda as dunas, o tempo toca, moldando nosso rosto e deixando suas marcas. Companheiro invisível e  constante. E vou seguindo. Tomando carreira de bicho bravo, enganando-me com frutos venenosos, caminhando até a exaustão e, quando tudo parece está de mal com você, você encontra na beira da estrada uma árvore grande, com uma sombra bem gostosa, pra que você encoste nela e descanse, mas só pra descansar, nada de ficar. Bora andando, a estrada não acabou, há muita coisa pra ser vista e sentida, há muitas risadas a serem dadas e lágrimas pra rolar. Ô, vida alegre! Ô, vida triste! Chega até ter graça. E não  importa o que aconteça, sempre haverá motivos para continuar e vez ou outra, verá que a vida vale a pena ser sentida.

Leila Oliveira