sábado, 9 de outubro de 2010

Lembra?

Lembra, amor? Quando a gente amanheceu nas escadas da catedral, tomando pedra noventa e fumando pacaia? Você ouvindo metal, e eu suportando aquele som irritante só pra te agradar, mas eu achava lindo a sua empolgação tocando guitarra invisível. Lembra, amor? Você precisa lembrar... tente lembrar.
Lembra, amor? O quanto me surpreendeu o tamanho daquele cravo, e eu fiquei louca para espreme-lo, você se recusava a deixar. Corremos a casa toda, eu querendo a todo custo eliminar o cravo, lembra? Ah, aquilo tirou a minha paz... mas no final você deixou, mesmo sabendo que ia doer, só pra não me contrariar. Sua testa ficou horrível com aquele calombo!
Lembra, amor? Quando procuramos algo pra comer? Estávamos quebrados(sempre quebrados) e só tinha um miojo? A divisão do miojo foi muito divertida, eu queria que a maior parte fosse pra você, você queria que fosse pra mim, passamos horas discutindo, e o miojo acabou esfriando e ninguém comeu.
Lembra, amor? Fazíamos amor a qualquer hora, se brincar, em qualquer lugar. Uma, duas, três... muitas loucuras. Quando você me olhava daquele jeito, como se seus olhos fossem me comer, eu arrancava a sua roupa e saía de mim.
Agora, saímos com nossas carteiras de cigarro, cada um com a sua, tomamos bons vinhos, vodcas, cervejas, frequentamos bons lugares. Você já não ouve metal com tanta frequência, ou quase nunca. Sempre concordamos com as mesmas coisas. Não precisamos decidir quem fica com a maior parte do miojo. Fazer amor sempre à noite, não em qualquer lugar, e duas ou três vezes na semana. Sim, tudo se tornou muito chato e monótono. Eu e você.
Você me propôs uma coisa e eu topei. Para relembrar o tempo em que estávamos no ápice da nossa felicidade, compramos um pacote de pacaia, uma garrafa de água ardente pedra noventa e fomos para as escadas da catedral. Sentamos. A escada estava pintada. Muita coisa mudou, assim como nós. Abrimos a garrafa, acendemos a pacaia, eu reclamei, você reclamou... a cachaça e aquele fumo estavam intragáveis, e nos perguntamos como conseguimos, um dia, beber aquilo. Eu reclamei do frio, você do silêncio. Não nos restou outra opção a não ser ir pra casa. Viemos em silêncio durante todo o caminho até em casa, nostalgicos, cada um com seus pensamentos. Já na porta de casa, você, rasgando o silêncio, se virou para mim e disse que aquele tempo não volta mais, que foi único e nunca se repetirá, de nada adiantaria sentar naquelas escadas esperando aquilo voltar. Não volta. O nosso tempo ficou lá atrás.
Ah, amor... lembra?
Leila Oliveira

12 comentários:

  1. Escreve demais homii,muito massa ;)

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  2. Parabéns! Expressou seus sentimentos de forma peculiar...
    Vejo que vem grandes obras por ai :)

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  3. parabéns pela imaginação! muito fértil !!!! ANDERSON

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  4. Tempo bom é aquele que não se volta, que por sua essência, se torna único, transcendental. Muito bom, me deliciee lendo ;D
    Parabéns, Nega! Você vai muito longe, acredite.

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  5. Obrigada pelo tempo dedicado a leitura dos meus textos, viu gente? Beijos!

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  6. Muitooo bom! Parabéns Leilinha! :)

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  7. se as lembranças forem boas, o tempo não precisa mesmo voltar... na nossa mente não lembramos mesmo dos pequenos infortúnios das situações...

    belo texto, amei o blog, seguindo e desejando sucesso.

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  8. Para relembrar o tempo em que estávamos no ápice da nossa felicidade, compramos um pacote de pacaia, uma garrafa de água ardente pedra noventa e fomos para as escadas da catedral. Adorei essa parteee... Change Feelings

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  9. os sentimentos expressos soou tão magnificamente bem *--*

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  10. acho que me identifiquei com este texto. não queria, mas me identifiquei.

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